(qualquer verossimilhança é mera descoincidência)

sábado, 13 de agosto de 2022

A lua mais linda que já ouvi

A lua era realmente absurda. Mais linda, redonda e amarela que já vi. Em noite limpa e plena, via-se o contorno da serra com perfeição e, ao fundo, a Guanabara acesa. À meia altura, boiava ela, em pouso sem gravidade, milhas além, mas, também, tão perto. Alumiava como nunca, com toda as forças, a ponto de parecer um sol - embora cheia como essa jamais ambicionasse ser coisa outra. Diante do deslumbre absurdo, os expectadores, no coletivo, em direção àquele farol-satélite, experimentavam a vacuidade de adjetivos: calavam-se, diminutos. Quando então irrompe o grito de um mudo, da poltrona à frente. Embora sem fala, parecia ser o único a saber o que dizer. Gritava, balbuciava expressões ininteligíveis, pulando de lado a outro, tentando fotografar a lua. Sim, era a lua mais linda que já vi,  capaz de fazer o mudo contar, com precisão, o indizível. 

tanta coisa não se sabe dizer

confesso
este delito
tanto por dito
ou não 
a tal ponto que
 
interdito 
e oiço
o silêncio inaudito
em sussurro mal dito
a me dizer


quinta-feira, 28 de julho de 2022

rua dos inválidos

os nobres casarões da rua dos inválidos
mesmo carcomidos, em ruínas
continuam
com eiras, beiras e sacadas
a debruçar eternidade

a validação não tem prazo de validade
sequer valida, em verdade;
é, apenas, uma valia 
tão só 
à raridade

alinearidade

nada é linear:
linha de pipa avoada
às profundezas do céu

to the moon
or to the hell

a depender nossa vã filosofia
ciscando o dia-a-dia

a vida é isso: 
não a fantasia intangível 
mas a lida do possível

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Kairós

as perdas são pontos da mudança geral
virada de chave
aos ciclos primordiais da Natureza 

extrair boa sensação desse contexto
é aceitar a integralidade da vida;
o agora é relativo, fugaz e permeado de lembranças

nem tudo se perde 
quando se percebe 
que o presente é parte de um sistema maior de tempos e acontecimentos